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IZABELA GUIMARÃES

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Não podia acreditar no que estava ouvindo. Ali, parada à beira da estrada, eu encarava incrédula o rosto preocupado daquele mecânico sujo de graxa, enquanto ele listava os problemas do meu carro:

— Olha, dona, sem combustível, pneu murcho, motor sem água, carro assim não anda não. Vai precisar parar um tempo aqui pra consertar.

Meu coração disparou. Parar? Como assim parar? Impossível!

— Moço, você não tá entendendo! Eu tenho muita coisa pra fazer. Minha agenda tá lotada com reuniões, prazos, compromissos. Não dá pra parar agora, não!

Enquanto ele falava, fui para a traseira do carro e comecei a empurrar. Não sei se já comentei, mas meu carro estava em uma ladeira. Reuni todas as forças que me sobraram e comecei a empurrar. 

— Argghhh, vai carro, anda! — Eu dizia, fazendo a maior força que já fiz na vida. Estava acostumada a fazer as coisas acontecerem, e não seria diferente daquela vez. Tinha decidido tirar aquele carro do lugar, ladeira acima, mesmo sem ajuda de ninguém! Eu fazia uma força sobrenatural, acreditando que o carro podia se mover para seguir viagem, no meu modelo de autossuficiência. Aquela mulher que sempre quis carregar o mundo com as próprias mãos, era incapaz de movê-las para empurrar o próprio carro. 

O mecânico me encarou pacientemente, com uma expressão que parecia já conhecer bem mulheres como eu, sempre correndo atrás de mais uma tarefa, mais um sonho, mais uma realização. 

Olhei para o carro parado na estrada e tive vontade de chorar. A sensação de impotência tomou conta de mim. Minha vida, que até então parecia estar perfeitamente sob controle, acelerada ao máximo, agora estava ali, parada, imóvel.  Justo eu, que acreditava ter o controle absoluto sobre cada quilômetro rodado.

— Qual foi a última vez que a senhora parou para fazer uma manutenção? — o mecânico me perguntou, como quem já conhecia a resposta.

Manutenção? Parar? Moço, será que dá para fazer manutenção andando? Tive vontade de perguntar, mas me limitei a olhar para o chão, cansada demais para dar mais uma justificativa para o meu descuido comigo mesma, com a minha própria vida.

A verdade é que eu havia ignorado os sinais de alerta. Em algum momento da estrada, uma luz amarela no painel dera sinais de que algo não ia bem. Mas eu estava ocupada demais para parar e cuidar daquilo. Deve ser pouca gasolina, vou abastecer rapidinho e resolvo isso. Algum tempo depois, uma luz vermelha havia acendido. Bem, eu sabia que provavelmente era importante, mas precisava andar só mais um pouco antes de parar para ver o que seria aquele alerta. Só mais uns quilômetros, pensei. Eu consigo, meu carro aguenta. 

Mas não aguentou. 

E foi ali, naquele exato instante, no meio daquela estrada desconhecida, que eu entendi algo profundo: viver da minha maneira, acelerando sempre, ignorando os sinais claros de alerta e conduzindo minha vida sem parar um segundo, só funciona nas propagandas de energético na televisão. Na vida real, dirigir sem descanso, sem prestar atenção aos alertas, sempre acelerando em busca de algo mais, em algum momento cobra seu preço. E o preço, descobri naquele dia, pode ser muito mais alto do que estamos preparadas para pagar.

Foi naquele exato momento, parada em frente ao meu carro enguiçado, que aprendi algo que mudou para sempre minha forma de viver: nem sempre aquilo que parece certo aos nossos olhos é o melhor para nossa jornada. A experiência que vivi quando fui obrigada a parar, sem condições de voltar para a estrada, mudou tudo. A partir daquele momento, uma viagem diferente começou.

Sou uma pessoa muito criativa. Trabalhei com comunicação e marketing durante toda a minha vida profissional, por isso gosto de pensar e criar muitas metáforas e analogias, que me ajudam a entender o mundo e a realidade ao meu redor de maneira mais bonita, poética e leve. De alguma maneira, tudo ao meu redor parece me contar uma história, comunicar uma mensagem. Foi assim que, analisando minha jornada, comecei a perceber as semelhanças entre um carro e minha própria vida. Nas muitas analogias que rondam minha mente criativa, passei a comparar a forma como vivo à maneira como dirijo: às vezes calma e atenta, outras vezes acelerada, cheia de pressa, sem dar a devida atenção à manutenção.

E você, já pensou nisso? Como é seu jeito de dirigir a vida? Você é daquelas motoristas cuidadosas, que sempre param para conferir o óleo e a água, ou vive acelerada, tentando chegar logo no próximo compromisso? Ou será que você é ainda mais acelerada, chamando um Uber para correr mais rápido ainda e já ir resolvendo outras coisas enquanto está sentada no banco de trás?

Decidi relatar neste livro algumas das minhas experiências contando a você como foi e tem sido a minha “viagem” até aqui. Prometo que, no fim, você entenderá e terá a oportunidade de ver em que condição anda o seu carro, como você tem dirigido e por quais estradas tem viajado. Quero ajudar você a fazer o que eu demorei muito a fazer.

Parar e olhar para si mesma.

Ao me ver parada naquela estrada, entendi que a vida é como uma viagem de carro: viver acelerada, ignorando alertas internos e externos, leva inevitavelmente à exaustão e paralisação. Porém, parar, cuidar de si mesma e entregar a direção a quem realmente conhece o caminho transforma sua jornada e revela que a realização não está na velocidade, mas na clareza e na consciência de quem você realmente é. 

Conheci muitas mulheres que, embora brilhassem nos palcos da vida, nos bastidores, confessavam a exaustão por se sentirem presas à necessidade constante de provar que são boas o suficiente. Esse modo de vida, no qual estamos sempre tentando dar conta de tudo, na tentativa exaustiva de provar nossa capacidade e nosso valor, pode nos levar à frustração e acabar nos desconectando de quem realmente somos. Ah, e como é maravilhoso descobrir o próprio valor, descansando simplesmente em ser: a mulher, a filha, a esposa, a mãe, a amiga. 

Meu desejo sincero é que meus milhares de quilômetros rodados possam ativar em você um senso de autocuidado. Quero que você olhe com carinho para o seu painel, perceba como tem dirigido sua vida e descubra o que precisa ajustar para pegar a estrada certa, com a direção clara e alinhada com aquilo para o qual você foi criada.

Na sua jornada, haverá momentos em que muitas placas estarão à frente para alertar e direcionar, mas haverá outras que estarão na estrada para distraí-la. Cada estrada irá levá-la a uma jornada diferente, mas existe uma feita especialmente para você, acredite. Às vezes, por curiosidade ou precipitação, escolhemos destinos que jamais deveriam fazer parte do nosso GPS. Algumas estradas, definitivamente, não são para nós, e, por inocência, curiosidade ou teimosia, nós nos arriscamos nelas.

Convido você, a partir de agora, a ser minha passageira. Juntas, vamos atravessar caminhos retos e outros bem sinuosos, enfrentar tempestades e aproveitar dias de sol com música alta e vento no rosto. 

Quero que veja as chuvas e tempestades que peguei, rotas em que me perdi, outras em que me encontrei. Por aqui, vamos desfrutar de dias muito alegres, mas também teremos dias de lágrimas sem rumo algum. Passaremos juntas por poças de lama e ventania, mas veremos também alguns arcos-íris inesperados, pores do sol indescritíveis no horizonte e estradas arborizadas e tranquilas.

Quero que, ao passar por essa estrada comigo, você possa ver, através da janela, a beleza de viver sendo você mesma. Quero que entenda definitivamente que você já foi aceita e amada, e que não precisa dirigir sem parar até encontrar a realização — ela não está no final da estrada, eu garanto. Você não precisa viver esgotada para provar seu valor. 

Antes, quero combinar algo com você: se, em algum momento, a leitura a incomodar, não tem problema. Nós podemos fazer uma parada para você descer, respirar ar puro ou tomar um café. Mas não deixe de voltar e continuar a viagem. Estaremos juntas nessa jornada honesta e sem julgamentos. Não precisa trazer bagagem, apenas seu documento de identidade, para se lembrar quem você realmente é. 

Quero que você esteja consciente, afinal, somente quando conhecemos a verdade podemos ser verdadeiramente livres. Quero dizer a você que é possível viver de uma maneira diferente. Você terá que fazer escolhas, reencontrar-se consigo mesma, com seus valores, suas verdadeiras paixões e sua essência. Então, quando for confrontada nessa estrada comigo, PERMANEÇA. Logo, você começará a ver outras paisagens e pegar outros caminhos, que a conduzirão a lindos lugares de descanso. Esse encontro verdadeiro e honesto vai ajudá-la a sair e viver com autenticidade e equilíbrio. 

Seja muito bem-vinda ao meu carro. Sente-se confortavelmente, coloque o cinto de segurança, pois eu já vou dar a partida! 

Vamos juntas pegar a estrada!

Izabela Guimarães 

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